domingo, 17 de agosto de 2014

Esforço, Mérito e Recompensa

Em meados de 2006,quando o Rafinha era só um projeto ,assistimos a um filme muito especial chamado Ray.
A vida do grande Ray Charles, um filme particularmente atrativo não só pela biografia do músico, mas pela trilha sonora absolutamente genial.
Cego devido a um glaucoma soa improvável que aquele homem tivesse esse talento, que cantasse como um “crooner” e tocasse piano como um jazzista, com alto nível técnico e com confiança e proficiência.
Mas à medida que assistimos ao filme entendemos onde está o milagre:
A mãe foi o grande diferencial, pois moldou o filho para que enfrentasse os desafios da vida como qualquer outro não se escondendo atrás da cegueira, usando sua deficiência como uma eterna desculpa para tudo.
A surpresa do filme é que ele mostra que a cegueira não foi o centro da vida de Ray, na verdade sua verdadeira luta foi contra seus vícios, contra seus medos, contra os seus próprios excessos.

A cegueira gerava um laivo de preconceito quando as pessoas faziam contato pela primeira vez com ele, mas isto logo se transformava em admiração ou respeito por causa da atitude de Ray, sempre independente e confiante.

A deficiência daí mais parecia ser uma excentricidade, uma característica particular, somente isso.
Ray recusava o estigma de homem cego de ter uma “vida de cego” ensimesmada na própria deficiência.
Ele era antes de tudo um homem.
Um homem como outro qualquer e assim viveu sua vida.

Mas Ray não nasceu cego assim como não nasceu confiante ou determinado, ele foi ensinado a ser assim e a educação que recebeu da mãe foi toda a diferença na sua vida.

A parte mais emblemática do filme talvez seja a cena abaixo:
Link da parte do filme: enxergando com outros sentidos.

A grande reflexão que esta história de vida nos passa é a respeito da missão dos pais:
A paternidade nos dá essa missão de educadores, responsáveis pelo desenvolvimento dos nossos filhos.
Toda missão carrega consigo uma meta, um objetivo, ou seja, a missão precisa de um significado.


Mas para atingirmos um objetivo com nossos filhos precisamos primeiro traçar um.
A pergunta que devemos fazer primeiro é qual é a vida que queremos para nosso anjo azul.

Se tivermos como objetivo para eles uma vida normal e sem limitações temos que ser objetivos e sabermos dosar nossa medida para educar e nossa medida para proteger.

Admiramos nossos anjos azuis por seus talentos e focamos neles e deles tiramos consolo para viver.
Mas negligenciar pontos fracos para poupa-los é negar o total potencial das nossas crianças, é criar nossos filhos para viver a “vida de cego”.
Não podemos ser tolerantes com comportamentos que consideramos nocivos, nem podemos isolar nosso filho das regras do mundo, temos obrigação de trabalhar os pontos fracos e contemporizar as regras do mundo e as regras dos nossos filhos até atingirmos um equilíbrio.

A chave para isso talvez seja ensinarmos o valor do esforço e a importância do mérito.
Quando o Rafa estava no estagio não verbal o estimulávamos e não deixávamos ele desistir de fazer as coisas que queria e não conseguia.

 Víamos muitas vezes a frustração dele de não conseguir e isso doía e em nós... nos decepcionava.
E falo de coisas simples como comer com o talher ou suportar a espera numa fila, coisas difíceis quando ele tinha quatro ou cinco anos.
Desistíamos algumas vezes, mas na oportunidade seguinte estávamos tentando de novo.
Era preciso fazer o que era difícil para que ele superasse e desse um passo a frente mesmo que isso fosse às vezes duro para ele.
Por outro lado quando ele conseguia mostrávamos o quanto estávamos satisfeitos (bater palmas para ele aqui em casa é corriqueiro...) e ele começou a gostar disso.
É muito legal vê-lo arrumando o quarto ou tomando banho sozinho, escolhendo a roupa que quer usar e vesti-la sem ajuda.
Considero que o lado bom do “ser independente” foi ensinado a ele na base desta “tentativa e erro”.

Esta vontade de ser independente gerou necessidade de conhecer coisas novas.
Como o que é novo é também difícil, começamos a ensinar para ele o valor do mérito, de se trabalhar para conseguir o que se quer.
Começamos isto com o Rafa há pouco tempo atrás com a estratégia das bolinhas azuis: ele fazia as coisas que gostava e as coisas que não gostava  quando pedíamos e ganhava uma bolinha azul.
O jogo era atingir um score de bolas azuis e ganhar o “prêmio”.
Hoje em dia o jogo é mais evoluído, por exemplo, a Sil usa a admiração que ele tem pelo meu trabalho para ensinar que a birra de não ir para a escola pode ser ruim para ele:
”Se você quer trabalhar no escritório que nem o papai tem de estudar”!
É engraçado ver que ele fica pensativo de ouvir este tipo de comentário da mãe e normalmente cede.
A escola parece estar virando mais uma bolinha azul.

Nosso entendimento é que ensinado a independência como valor e premiando o esforço sempre nosso filho buscará enfrentar as dificuldades cada vez mais, cada vez menos dependente de nós cada vez mais confiante em si.
Apesar de estarem autistas, quase sempre nós pais conseguimos estratégias para nos aproximar e comunicar o que esperamos deles.
Por isso basta desistirmos da superproteção e começarmos a força-los a ver a vida como ela é, de maneira suave, mas determinada respeitando o limite, mas não se limitando por ele.
Esta atitude é bem mais efetiva que a medicação, a dieta ou a terapia porque essas três apenas abrem o caminho, a vitória vem da dedicação, da perseverança, do dia a dia, da aposta sadia no potencial da criança.
Vale a pena tentar mesmo porque só temos a ganhar, e essa tríade de esforço, mérito e recompensa que vale tanto para os nossos filhos hoje na verdade é o peso pelo qual mediremos futuramente a nossa trajetória como pais:
Pelo nosso esforço não ter sido em vão.
Pelo mérito de termos libertado nossos filhos.
De termos sido recompensados pela felicidade deles.