quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Minhas impressões de mãe no Encontro DIR/ Floortime

No último fim de semana, dias 11 e 12 de outubro, eu participei do primeiro Encontro DIR/ Floortime para pais e profissionais que aconteceu no Rio de Janeiro.
As palestras ocorreram com diversos profissionais, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, médicos e mães, abrangendo diversas áreas de tratamento de autismo e diversas faixas etárias de idade, mas tudo dentro da abordagem do Floortime. 

Eu não conhecia este método de tratamento, e confesso que gostei muito da metodologia, e durante as palestras identifiquei algumas ações minhas e do meu marido parecidas com a abordagem do floortime.

A primeira palestra foi sobre o papel do afeto, mas nos exemplos expostos inclusive por vídeos, o que este afeto significa é diferente do que pensamos na hora em que lemos o título, amor e carinho, e sim quer dizer afetar alguém, chamar sua atenção. Então a fonoaudióloga Adriana pegou um frasco de bolha de sabão, posicionou em sua boca mas não soprou, ficou ali como uma estátua, e realmente nos AFETOU, pois ficamos incomodados querendo que ela logo fizesse suas bolhas.  E então disto entendi que devemos trazer nossos filhos para o nosso mundo, mas nada forçado, e sim os afetando a se interessarem por este mundo louco, engajando a criança em atividades de seu interesse.
Papai "afetando" o Rafael!
Foi explicado também que os atendimentos neste modelo envolvem os pais durante as sessões e que eles podem contribuir muito lendo sinais não verbais que a criança pode apresentar ou até sons que os pais estejam acostumados a identificar.
Também nesta palestra me chamou a atenção que devemos primeiro fortalecer o não verbal, principalmente as expressões faciais e corporais que comunicam muito, para que depois venha a compreensão e a fala.
Outro vídeo apresentado nos mostrou a importância de darmos espaço para que as crianças explorem os ambientes e formem seus aprendizados, pois nós em nossa ansiedade temos a tendência de querer ensinar tudo sem deixar a criança experimentar suas próprias experiências, muitas vezes pelo medo dela de se machucar ou se frustrar. E aprendi que esta exploração do mundo está ligada ao sentimento de segurança da criança. E neste ponto lembrei de alguns exemplos que eu enquanto mãe me agoniava e já queria ajudar nosso anjo a terminar alguma tarefa e o papai me censurava para que ele tentasse sozinho.
Mamãe segurando a ansiedade para que Rafael experimentasse!

Em outra palestra sobre atendimento domiciliar, com a psicóloga Roberta, também me identifiquei em alguns aspectos. Ela citou que quando chega em uma casa para iniciar os atendimentos procura primeiro organizar o ambiente, que na maioria das vezes é repleto de brinquedos trazendo muito estímulo a criança. Esta organização do ambiente deve ser feita guardando brinquedos em caixas ou cestos e alguns dos brinquedos em locais mais altos realizando rodízios, uma vez que a falta de organização e um quarto ou sala com muito estímulo pode desregular a criança.
Caixas com brinquedos
O próprio Rafael agora organiza seus brinquedos!
Outro ponto que fazemos aqui em casa e foi citado ser muito importante é envolver a criança em todos os processos e rotinas da casa, tornando ela ativa nos processos, estimulando-a assim em toda a sua rotina. Foi exemplificado por exemplo que se acabou a bebida preferida da criança, envolve-la explicando que acabou e que tem que ir no mercado compra-la, leva-la junto as compras explicando todo o processo, que a bebida não vai surgir como mágica na geladeira ou na mesa.
Também foi citado a importância da repetição de brincadeiras onde a regra é brincar com o objeto de interesse da criança mantendo-a engajada na brincadeira, não importa o que seja, usando a criatividade. Entretanto é necessário aos poucos criar variações na brincadeira de interesse para lhe causar surpresa e motivação, ou seja, AFETAR a criança.
Inventando brincadeiras sem brinquedos!
Foi exposto também a importância do terapeuta ou pai ser mais interessantes que os brinquedos, sendo estes apenas aliados na interação e não o foco principal. 
Sempre antecipar as situações futuras, ir avisando “daqui a pouco...”, recapitular os eventos do dia e antecipar os do dia seguinte, para que a criança entenda melhor e comece a desenvolver essa lógica de sequência na sua cabeça.
E um ponto crucial: não sair de casa escondido sem se despedir da criança, isto causa ansiedade e insegurança. É importantíssimo ela se frutar e aprender a lidar com este sentimento e se regular.
Não punir e ensinar disciplina no momento em que a criança está desregulada ou sobrecarregada, é preciso dar suporte emocional, aceitação e segurança.

Depois acompanhei a palestra sobre o trabalho em grupo composto de crianças neurotípica junto com com crianças com algum transtorno de desenvolvimento, e nesta palestra ouvindo a proposta e vendo os vídeos aprendemos o quanto as próprias crianças se  tornam terapeutas e se ajudam entre si. Nesta palestra ficou claro a importância do brincar, que as crianças atualmente estão com a agenda tão lotada, que estão tão ansiosas como nós adultos, preocupadas com todas as suas atividades e escola, que esquecem de brincar, e este espaço foi criado com este objetivo. Lá atendem profissionais de psicologia, psicomotricidade e fisioterapeutas, dando suporte as crianças e apoio as famílias.

Outra palestra do sábado foi sobre experiência na abordagem floortime com a música, onde a Michelle apresentou alguns vídeos e explicou seu trabalho com as crianças, que não entram nesta terapia para já aprenderem a tocar um instrumento musical específico, e sim aprendem tudo o que compõe uma música, como sua harmonia, ritmo e melodia. Todo o conteúdo sobre música é apresentado as crianças no formato de brincadeiras, densidade, timbre, intensidade, altura, duração, sons simultâneos, fonte sonora, forte/fraco, agudo/grave e curto/longo.
Sempre envolvido com música e instrumentos musicais!
E para encerrar o primeiro dia foi exposto o papel da família, desde o diagnóstico até o processo, e a Danielle apresentou dados de sua tese de mestrado sobre o assunto, e neste ponto para nós pais não foi nenhuma surpresa, pois ela relatou alguns casos desastrosos de abordagem de médicos ou outros profissionais no momento do diagnóstico, bem como rejeição em escolas e dificuldade em terapias.

O domingo iniciou com a palestra da Patricia sobre seu projeto em Recife, o CDI, que eu ainda não conhecia. Ela com outros profissionais montaram uma casa para atender crianças e treinar terapeutas multidisciplinares no método DIR/ Floortime durante três semanas, como um preparo para a criança ser inserida na escola e que seus terapeutas continuassem a aplicação de terapias neste método durante todo o resto do ano em sua cidade. O projeto depois foi expandido e para quem mora na cidade já tem atividades durante o ano todo. O trabalho nas crianças ocorre em três áreas principais: linguagem, tato e motor, com diversas atividades e repetição de brincadeiras, procurando dessensibilizar e preparar seu cognitivo para uma inclusão escolar.
Alguns pontos que me chamaram a atenção nesta explanação e nos vídeos que foram apresentados: as crianças podem levar até 6 meses para mapear todo o ambiente de uma sala de escola para depois começar a render seu cognitivo, e por isto ficam atrasadas no aprendizado, pois cada ano mudam de sala, professora e às vezes de colegas; crianças de 3 a 5 anos é preciso tira-las do alerta sensorial (por isso é um período tão sofrido para nós pais); quando a criança é desconectada (aquela criança quieta, que se deixar parada, fica ali) tem que agita-la, fazendo brincadeiras mais intensas (foi mostrado um vídeo com as crianças batendo em uma bola de pilates fazendo um ritmo intenso; de 2 a 10 anos devemos torna-las independentes; que antes de inserir letras devemos ensinar as formas geométricas.
E com estas considerações foi falado que às vezes aos olhos dos familiares que acompanham as terapias parece tudo brincadeira, mas que cada brincadeira tem um propósito de aprendizado futuro, como uma base.

Depois acompanhei a palestra da Dra. Geórgia, médica do nosso anjo, que explanou de forma muito clara sobre o papel de cada especialidade médica dentro do tratamento do autismo e o papel dos terapeutas em identificar sinais de outras síndromes genéticas que podem ser confundidas com os sintomas do espectro.
Segundo a médica é importante termos acompanhamento com o pediatra, com o neurologista, com o psiquiatra (se precisar medicar é a melhor opção), com o geneticista, com o nutrólogo e com o gastropediatra (se apresentar sintomas como refluxo, arrotos, problemas intestinais) e alergista.
E o porquê estes acompanhamentos? Ela citou a história do canário da mina de carvão, onde os trabalhadores levavam um canário para as minas durante seu trabalho, e caso ele parasse de cantar ou adoecesse todos se retiravam imediatamente do local e caso o canário morresse todos saiam correndo dali, pois o animal é muito sensível aos poluentes. E que nossas crianças no espectro autistas seriam nossos canários, são muito sensíveis a poluentes, corantes e aditivos químicos.
Foi explicado também sobre o tratamento biomédico, a homeopatia e a nova terapia CEASE.
E o que me chamou muito a atenção foi que nos EUA a Sociedade Americana de Pediatria já recomenda que os pacientes no TEA sejam encaminhados aos gastropediatras, uma vez que a maioria apresenta algum problema seja na sua digestão ou no seu intestino, e como não conseguem explicar para seus pais o tipo de dor tornam-se agressivos ou irritados e não tem disposição de brincar ou aprender.

Na parte da tarde foi explanado pela Helena um caso de atendimento adulto, também na metodologia floortime, e o que me chamou a atenção foi não infantilizar os jovens e adultos autistas, trata-los com música e recursos apropriados para sua idade, para que melhorem sua auto estima e procurem um meio de progredir, neste caso da palestra o rapaz de 22 anos foi inserido no mercado de trabalho e mesmo sendo não verbal está exercendo suas atividades com auxílio de um colega, mas está progredindo a cada dia e que sua auto estima melhorou incrivelmente. Ela também faz exercícios de Pilates com ele para fortalecer seu tônus muscular, que para cada atendimento o terapeuta deve procurar o melhor trabalho, individualizar, e nunca infantilizar este jovem ou adulto.

Na sequência ouvimos duas profissionais que atendem em um espaço na Bahia, a Renata e a Gabriela, fisioterapeuta e terapeuta ocupacional. Neste local elas trabalham a prática de esportes também com a metodologia floortime e apresentaram um caso onde o menino de 12 anos faz natação, vôlei e basquete.
O que me chamou a atenção é que o esporte realmente além de trabalhar o tônus muscular, que segundo estudos é prejudicado em todos os autistas, trabalha também o planejamento motor (habilidade de planejar e executar um série de movimentos), sugerindo assim que a prática de exercícios promove um aumento de plasticidade nas conexões neuronais, além de melhorar a ansiedade, de utilizar a energia contida de forma intencional e de aprender a lidar com dificuldades e frustações.
Foi colocado sobre a natação que é um dos exercícios mais completos, onde a pressão da água pode ser calmante para o sistema sensorial, além de ser um ambiente seguro para treinar equilíbrio e coordenação motora, evitando acidentes.
Rafael na natação!
A Gabriela reforçou que não devemos nos preocupar somente com um produto final (que aprenda isto ou aquilo) e que devemos sim nos preocupar com o processo e todas as suas etapas. E frisou muito o BRINCAR!!!
Rafael brincando e explorando!
Também ouvi o relato emocionado de duas mães, a Roberta e a Luciana e suas experiências muito positivas no método DIR/Floortime.


O encontro foi realmente muito rico em informações, porém toda a parte técnica exposta eu não acompanhei bem, pois foi a primeira vez que me deparei com o método, mas como a plateia era formada principalmente de profissionais tenho certeza que para eles as impressões e informações foram bem mais ricas que as expostas aqui, e para os profissionais que não conhecem esta metodologia recomendo estuda-la, pois os profissionais que a utilizam demonstram um amor e admiração em trabalhar com esta metodologia que realmente nos contagiou durante todo o encontro.

Finalizo com uma frase apresentada:
“Queremos que a criança QUEIRA estar no nosso mundo!” 
Rafael muito presente e feliz!
Acredito que assim ela será aceita e feliz!


Coloquei as fotos do Rafael que achei que ilustra bem cada etapa que aprendi do método DIR/ Floortime  e que me identifiquei, onde já aplicávamos algumas técnicas apresentadas sem ter conhecimento de que esta forma de brincar, de deixar ele experimentar e de organizar poderiam estar tão presentes em um método de tratamento, o que me faz concluir o papel fundamental dos pais que não precisam ser terapeutas, apenas pais responsáveis, divertidos e amorosos!


Para quem quer conhecer mais sobre o método segue informações do site: http://floortimebrasil.blogspot.com.br/2010/04/modelo-dirfloortime.html
O modelo D.I.R. (Modelo baseado no Desenvolvimento, nas Diferenças Individuais e na Relação) consiste num modelo de avaliação e intervenção que associa a abordagem Floortime com o envolvimento e participação da família, com diferentes especialidades terapêuticas (terapia ocupacional, fonoaudiologia) e a articulação e integração nas estruturas educacionais.
As estratégias deste modelo visam avaliar e intervir sobre áreas relevantes de funcionalidade, nomeadamente: no desenvolvimento emocional funcional, isto é, capacidade de atenção e regulação, envolvimento, comunicação, resolução de problemas, uso criativo de ideias, pensamento abstrato e lógica; nas diferenças individuais de funcionamento do sistema nervoso central, ou seja, a forma como a criança reage e processa as experiências, e como planeja e organiza as respostas, inclui: modulação sensorial, planeamento motor, processamento auditivo e visuo-motor e nas relações emocionais com os cuidadores, competências para se envolver em interações afetivas.
A abordagem Floortime é um modo de intervenção interativa não dirigida, que tem como objetivo envolver a criança numa relação afetiva.

Os seus princípios básicos são:
- Seguir a atividade da criança;
- Entrar na sua atividade e apoiar as suas intenções, tendo sempre em conta as diferenças individuais e os estágios do desenvolvimento emocional da criança;
- Através da nossa própria expressão afetiva e das nossas ações, levar a criança a envolver-se e a interagir conosco;
- Abrir e fechar ciclos de comunicação (comunicação recíproca);
- Alargar a gama de experiências interativas da criança através do jogo;
- Alargar a gama de competências motoras e de processamento sensorial;
- Adaptar as intervenções às diferenças individuais de processamento auditivo e visuo--espacial, planeamento motor e modulação sensorial.
- Tentar mobilizar em simultâneo os seis níveis funcionais de desenvolvimento emocional(atenção, envolvimento, reciprocidade, comunicação, utilização de sequências de ideias e pensamento lógico emocional) (Greenspan, 1992b; Greenspan & Wieder, 1998).

Em conjunto com as interações não diretivas do Floortime, devem ainda ser usadas interações semi-estruturadas de resolução de problemas em que a criança é levada a cumprir objetivos específicos de aprendizagem através da criação de desafios dinâmicos que a criança quer resolver.
Fonte: http://floortimebrasil.blogspot.com.br/2010/04/modelo-dirfloortime.html